Embora a vacina contra o HPV (Papilomavírus Humano) seja a forma mais segura e eficaz de prevenção do câncer de colo de útero e outros tumores genitais e esteja disponível gratuitamente no sistema público, garantir que as doses cheguem aos braços de todos os adolescentes ainda é um desafio complexo em um país do tamanho do Brasil. Um novo estudo brasileiro, publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva , revela que 26,4% das adolescentes não receberam nenhuma dose da vacina contra o HPV. A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que analisaram dados de mais de 80 mil meninas em todo o território nacional da PeNSE (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar).

O levantamento mostra que a média nacional esconde realidades estaduais muito diferentes. Enquanto no Espírito Santo 17,3% dos adolescentes não se vacinaram, o índice chega a 34,2% no Rio Grande do Norte.

“Desigualdades regionais existem no Brasil em quase todos os indicadores de saúde, e não seria diferente nesse caso. Vários aspectos influenciam essa desigualdade regional, como organização dos serviços de saúde, distância das estruturas de saúde, falta de profissionais e financiamento insuficiente, entre outros aspectos”, explica Fernando Wehrmeister, pesquisador da UFPel e um dos autores do estudo.

Em estados como Mato Grosso do Sul e Bahia, adolescentes de famílias mais ricas, com maior nível socioeconômico, são as que menos se vacinaram, o que chamou a atenção dos pesquisadores. 

Gloved hand of nurse making an injection to little girl in clinics

Imagem: Freepik

“A hesitação vacinal pode, sim, ser um dos fatores que poderiam explicar esse resultado. Outro ponto importante que pode estar relacionado é a desinformação e o consequente aumento do movimento antivacina. As redes sociais desempenham um papel importante nesse aspecto, desinformando as pessoas sobre os benefícios da vacina”, alerta o pesquisador.

Por outro lado, a escolaridade das mães também se mostrou um fator de peso na decisão. Em diversos estados, meninas filhas de mulheres com menor nível de instrução têm significativamente menos chance de serem imunizadas nos postos de saúde.

“Melhorar a educação é algo pelo qual devemos lutar sempre. Com maior escolaridade, as mães podem se empoderar para tomar decisões mais adequadas para sua saúde e a de seus filhos. O serviço de saúde precisa entender os motivos que levam essas mães a não vacinarem seus filhos”, pontua Wehrmeister.

Para reverter esse cenário, as estratégias de saúde pública precisam ir além de apenas disponibilizarem as doses nas unidades básicas de saúde e incluir campanhas de conscientização desenhadas para a realidade de cada região e o combate às notícias falsas. Somente com ações amplas, que garantam a cobertura vacinal de meninas e meninos, o SUS conseguirá evitar um custo financeiro e humano nos próximos anos com o tratamento de tumores que são evitáveis com a vacina.