Um modelo estatístico capaz de auxiliar profissionais da Atenção Primária à Saúde a identificar e classificar o risco de situações de violência contra a mulher foi desenvolvido e validado por pesquisadoras brasileiras. O modelo de decisão se baseia em evidências empíricas, partindo de uma amostra de 563 usuárias do SUS no município de João Pessoa (PB) — 42,6% das quais relataram algum tipo de violência doméstica. Mulheres separadas ou divorciadas apresentaram três vezes mais chances de passar por uma situação de violência doméstica e familiar quando comparadas a uma mulher casada ou com união estável; mulheres com filhos estão quase quatro vezes mais suscetíveis do que as que não os têm. Vale destacar ainda que mulheres solteiras também apresentaram associação significativa com a violência, com chances quase duas vezes maiores do que as casadas. Estas e outras correlações estão descritas no artigo publicado em 10 de abril na Revista Ciência & Saúde Coletiva.
Cientistas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal) conduziram a coleta de dados em 52 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) de João Pessoa (PB), entre janeiro e março de 2023. Além dos pesquisadores, enfermeiras e odontólogas foram treinadas para aplicar um questionário destinado a coletar dados sociodemográficos e econômicos das participantes, além de informações sobre violência doméstica. O mapeamento também contou com o uso do Violentômetro, escala que busca facilitar o reconhecimento precoce de diferentes formas de abuso.
Dentre as entrevistadas, 42,6% relataram algum tipo de violência doméstica — prevalência que preocupou os pesquisadores. “Para nossa equipe de pesquisa, esses resultados reforçam duas questões fundamentais. Primeiro, a magnitude do problema, que é muito maior do que geralmente aparece nas estatísticas oficiais. Segundo, a necessidade urgente de qualificar os serviços de saúde para reconhecer e enfrentar a violência contra a mulher de forma mais efetiva”, declara a coautora Kerle Dayana.

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Análises estatísticas utilizando o instrumento apontaram para alta prevalência dos maus-tratos entre mulheres divorciadas e separadas e com filhos. Também foram identificadas as variáveis do Violentômetro que podem ter maior influência para a identificação de violência doméstica, sendo ridicularizar/ofender, intimidar/ameaçar, desqualificar, humilhar em público, chantagear, piadas ofensivas, ciúmes, machucar, empurrar, dar tapas, destruir bens pessoais, dar tapinhas/pancadinhas e ameaçar com objetos.
O artigo é fruto de tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Modelos de Decisão e Saúde da UFPB. É importante ressaltar que os resultados refletem uma realidade local — a amostra foi coletada exclusivamente em João Pessoa — e que novos estudos em diferentes contextos e populações serão necessários para avaliar a capacidade de generalização do modelo. A pesquisa tem como um de seus desdobramentos a proposta de um Observatório de Violência contra a mulher, a ser estruturado na UFPB em parceria com a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). O objetivo é consolidar um espaço permanente de produção e análise de dados sobre o tema, permitindo apoiar políticas públicas e desenvolver novos modelos analíticos que auxiliem na identificação precoce de situações de violência. “Também pretendemos ampliar a aplicação do modelo desenvolvido na tese em diferentes contextos e populações, avaliando sua capacidade de generalização e aprimorando sua utilização nos serviços de saúde, especialmente na Atenção Primária”, conclui Dayana.
Fonte: Agência Bori

