O uso de cigarro eletrônico entre adolescentes de 13 a 17 anos no Brasil está associado a fatores de saúde mental, influências sociais e ao uso de álcool e outras drogas, segundo análise da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) publicada na Revista Brasileira de Epidemiologia em 31 de julho de 2026.

A análise se baseia nas respostas de 159 mil escolares à Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2019, conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com o Ministério da Saúde. Nela, escolares de 13 a 17 anos foram indagados sobre o uso, nos 30 dias anteriores, de produtos de tabaco. A maior prevalência de uso foi do narguilé (7,8%), seguida por cigarros eletrônicos (2,8%), cigarro de palha (2,5%) e cigarro de cravo (0,8%).

A prevalência foi maior entre indivíduos do sexo masculino, de 16 e 17 anos. A análise também revela os principais fatores associados ao uso do cigarro eletrônico, sendo o consumo de bebidas alcoólicas e de outras drogas, os sentimentos de solidão e de tristeza, o uso regular de tabaco, ter amigos que fumam na sua presença e ter pais fumantes.

O pesquisador Paulo Corrêa explica: “Existe uma relação bidirecional com a saúde mental, já estabelecida para o cigarro comum e agora também para o eletrônico. Questões de saúde mental, como ansiedade e depressão, predizem o início do tabagismo, e o tabagismo em si leva à deterioração dos sintomas de saúde mental.”

O uso combinado também foi constatado, tanto no uso dual — de cigarro eletrônico e convencional (8,56%) — quanto no uso triplo, cuja principal combinação foi de cigarros eletrônicos, convencional e narguilé (13,49%). Já a maior frequência encontrada foi a combinação de todos os produtos, o chamado uso quíntuplo, com cigarro convencional, eletrônico, narguilé, de palha, de Bali/cravo e outros produtos.

Segundo Corrêa, o estudo foi o primeiro a relatar o poliuso, ou seja, o uso concomitante de diversas formas de tabaco associado ao uso de cigarros eletrônicos. “É muito preocupante, pois significa uma maior dependência da nicotina entre os adolescentes, resultando em mais sintomas de abstinência e menos chances de ter sucesso nas tentativas de parar de fumar em relação aos adolescentes que usam apenas um produto”, diz o pesquisador. Ele adverte: “Os jovens estão altamente dependentes. Precisamos melhorar as nossas políticas públicas, as campanhas, a própria disponibilidade de tratamento. Também voltar a aumentar a tributação e o preço final dos cigarros comuns.”

Fonte: Agência Bori