No começo do século passado, a Rua General Câmara vivia no ritmo da imprensa. Era ali, no antigo prédio de A Tribuna, que as máquinas de composição tipográfica funcionavam sem parar. Foi ao lado desse endereço que nasceu um dos negócios mais antigos do Centro Histórico de Santos: o Chaveiro Magenta, que no ano que vem completa 110 anos.

Imagem: Divulgação
Da redação para a oficina
O fundador da empresa, João Eugenio Magenta, trabalhava como linotipista em A Tribuna, cuidando das máquinas responsáveis por compor os tipos que iam para o jornal. Foi ao superar o alcoolismo que decidiu recomeçar. Pediu demissão e alugou o imóvel vizinho à redação, no espaço onde depois funcionaria a Camisaria do Estudante. Embaixo, a oficina; em cima, a casa da família.

Imagem: Divulgação
No início, ele consertava de tudo, desde espingardas, torradeiras de café e molas até fechaduras. Com o tempo, o trabalho foi se concentrando nas chaves e cofres. Foi esse o negócio que deu nome à família na cidade.
A lenda do cofre
Santos crescia como o maior porto da América Latina, e bancos e empresas do porto precisavam de segurança. Quando um cofre travava ou um segredo se perdia, era a família Magenta quem resolvia, e abrir um cofre, na época, virava acontecimento na rua.
“Dizem que quando meu bisavô e meu avô precisavam sair da cidade, eles avisavam o delegado. Se desse algum problema com cofre em Santos e eles não estivessem por aqui, ninguém mais ia conseguir resolver”, conta Gabriel Magenta, quarta geração da empresa.
Uma das histórias mais contadas na família é sobre um cofre, não se sabe ao certo se de um banco ou de uma empresa do porto. João Eugênio abriu tão rápido que o gerente responsável se recusou a pagar, achando que o serviço tinha sido fácil demais para o preço cobrado.
Sem discutir, ele fechou a porta do cofre de novo, girou o segredo e foi embora. Horas depois, precisaram chamá-lo de volta: sem ele, ninguém tinha acesso aos documentos guardados ali. Quando voltou, avisou que o valor seria o dobro, já que tudo o que fazia era de memória, sem anotação nenhuma, e teria que recomeçar o trabalho do zero. Abriu o cofre uma segunda vez e recebeu em dobro. A história correu a cidade inteira.
Legado que ultrapassa gerações
O fundador morreu em 1981, e foi o filho quem deu continuidade ao negócio, instalando a loja na Rua Martim Afonso, nº34, endereço onde o Chaveiro Magenta funciona até hoje. De lá para cá, a cidade mudou, os cofres praticamente sumiram e as fechaduras eletrônicas tomaram o lugar das antigas, mas o nome da família seguiu ligado ao mesmo ofício.

Hoje é a quarta geração quem cuida da loja, com a quinta já circulando pelos corredores depois da escola. Entre uma chave copiada e outra, o Chaveiro Magenta segue guardando, há mais de um século, um pedaço da memória de Santos.
Imagem: Divulgação

