Pesquisas de agências de crédito apontam que cerca de 15 milhões de jovens nascidos entre 1995 e 2010 já estão inadimplentes

Os jovens nascidos entre 1995 e 2010 mal entraram na vida adulta, mas já estão endividados. É o que apontam pesquisas da Serasa e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC). A inadimplência da chamada Geração Z pode ter graves consequências para a economia brasileira, já que este grupo está bem próximo de se tornar a geração mais endividada de todas. 

Segundo o último Mapa de Inadimplência e Negociação de Dívidas no Brasil, divulgado pela Serasa em dezembro de 2024, a Geração Z é a segunda mais endividada no país, com 34,1% dos seus membros com a verba comprometida. O grupo que lidera o ranking é o dos ‘Baby Boomers’ (nascidos entre 1946 e 1964), com 35,1% de inadimplência. 

“O elevado número de jovens inadimplentes representa um problema estrutural. Quando uma grande parcela da população está com menos poder de compra, o consumo cai. Então, as empresas começam a vender menos e, consequentemente, acabam gerando menos empregos. Como resultado, a roda da economia começa a enferrujar”, explica Sheila Persike, Mestre em Ciências Contábeis e professora da UNIASSELVI. 

A Mestre em Administração e também professora da UNIASSELVI, Bianca Grubert de Araújo, concorda. “O endividamento afeta diretamente o poder de compra dessas pessoas, fazendo com que diversos setores, especialmente os de produtos e serviços não-essenciais, sofram com a queda nas vendas, o que pode refletir em menos vagas de emprego, gerando um cenário complexo. Esta situação impacta negativamente a economia, reduzindo o consumo e a poupança das famílias, aumentando as taxas de juros e comprometendo a estabilidade financeira, elevando o risco de inadimplência e falências”. 

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Inadimplência atinge 15 milhões de jovens 

Segundo dados do Indicador de Reincidência da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC, estima-se que, em dezembro de 2024, 51% dos brasileiros com idade entre 25 e 29 anos estejam inadimplentes, enquanto na faixa entre 18 e 24 anos esse percentual chega a 29%. Juntos, esses dois grupos representam um total de 15 milhões de pessoas. 

“A entrada dessa geração no mercado de trabalho ocorre em um período de grande instabilidade econômica, com inflação alta, aumento do custo de vida, perda de poder de compra, dificuldade de encontrar empregos bem remunerados e falta de segurança econômica. Por si só, esses elementos criam um cenário propenso ao endividamento”, destaca Sheila. 

“Além disso, ao viver em um mundo altamente digitalizado, o consumo é incentivado a todo momento, seja por meio das redes sociais, influenciadores ou plataformas de compra online. Isso já era realizado por meio de rádio e televisão, porém hoje os jovens são bombardeados com anúncios personalizados, direcionados por algoritmos com base nos interesses pessoais de cada usuário. Esse tipo de marketing é muito mais eficaz e persuasivo”, diz. 

Já Bianca lembra que pesquisas apontam dados preocupantes sobre os impactos psicológicos do endividamento em jovens. “Estudos indicam que dívidas elevadas estão associadas a estresse crônico, ansiedade, depressão e baixa autoestima, afetando negativamente o sono, a concentração e a tomada de decisões, o que complica ainda mais a vida financeira e acadêmica desses jovens. Além disso, o status de endividamento pode levar ao isolamento social”. 

Educação é a chave 

Outro levantamento da CNDL/SPC aponta que 47% dos jovens da Geração Z não fazem controle do gasto. Entre os motivos apontados, 19% afirmam não saber como fazer esse controle, 18% informam que a falta de disciplina é um obstáculo, outros 18% admitem preguiça e 16% relatam não possuir rendimentos. 

Várias das causas para o endividamento da Geração Z já afetaram gerações anteriores, afirma Sheila. “Um exemplo clássico é a ausência de educação financeira nas escolas, uma lacuna histórica no país que segue sendo negligenciada. Como resultado, muitos jovens entram na vida adulta sem um conhecimento sólido sobre orçamento, finanças pessoais ou planejamento financeiro, o que os torna mais vulneráveis a decisões impulsivas”. 

Mas o que diferencia esta geração das outras é a adição de outros fatores, surgidos ou intensificados nos últimos anos, como o crédito facilitado e os incentivos ao consumo constante, especialmente em itens como tecnologia, moda e jogos de azar. “A facilidade de acesso ao crédito também pode contribuir para esse cenário. Hoje, abrir uma conta digital, solicitar um cartão de crédito ou dividir uma compra em diversas parcelas é algo extremamente simples. No entanto, sem o devido controle próprio, essa praticidade pode rapidamente se transformar em um problema”, destaca Sheila. 

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