Donana, de Pão-Pão, Beijo-Beijo, Isaura, de Mulheres de Areia, Guiomar, de A Viagem, e Matilde, de A Dona do Pedaço. Ao longo de mais de oito décadas de carreira, Laura Cardoso atravessou gerações e emprestou seu talento a personagens que ficaram na memória do público. A atriz morreu aos 98 anos, na madrugada de terça-feira (18), deixando uma trajetória que se confunde com a própria história da televisão brasileira.

O que chama atenção é que Laura permaneceu ativa até os últimos anos. Aos 97, protagonizou o curta-metragem Dona Rosinha e participou do lançamento da produção no Teatro Anchieta, em São Paulo. Mesmo com dificuldade para caminhar, conversou com jornalistas, atendeu fãs e participou de um bate-papo.

A relação de Laura com o trabalho traz foco sobre uma questão que interessa a quem deseja envelhecer com mais qualidade: como manter a mente saudável ao longo dos anos? Não existe uma fórmula capaz de garantir que alguém chegará aos 98 anos, mas hábitos que envolvem aprendizado, movimento, relações sociais e atividades significativas contribuem para preservar a autonomia e a participação na vida cotidiana.

Para Vitor Hugo de Oliveira, geriatra e cofundador da Acuidar, maior rede de cuidadores da América Latina, manter o cérebro em atividade passa por continuar tomando decisões e lidando com situações que exigem atenção e adaptação. “A atividade mental não precisa se resumir a exercícios de memória. Ler, conversar, aprender uma habilidade, cozinhar, organizar uma viagem ou se dedicar a um hobby são situações que mobilizam diferentes funções cognitivas. Quando existe interesse genuíno pela atividade, o envolvimento tende a ser maior e a pessoa permanece como protagonista da própria rotina”, explica.

Manter uma rotina com compromissos também ajuda a preservar a autonomia: ter horários para atividades, organizar pequenas tarefas e participar das decisões do próprio dia estimula planejamento e senso de responsabilidade. A convivência social complementa esse cuidado, uma vez que conversas e encontros mobilizam atenção, memória e linguagem. “A interação social não é apenas uma questão emocional. Ao conversar, a pessoa precisa escutar, responder, lembrar informações e adaptar sua comunicação, exercitando diferentes funções cognitivas”, explica Vitor.

Caminhadas, exercícios de força e equilíbrio também são bem-vindos nessa jornada, dado que ajudam a preservar a funcionalidade e a autonomia. Para Jéssica Ramalho, fisioterapeuta e CEO da Acuidar, manter essas capacidades amplia a liberdade do idoso. “Quando trabalhamos força, equilíbrio e mobilidade, pensamos na capacidade de a pessoa continuar fazendo aquilo que é importante para ela. Quanto maior a independência física, maiores as possibilidades de manter uma rotina ativa”, afirma.

A atividade, porém, deve respeitar as condições de cada pessoa. Histórico de saúde, limitações e nível de condicionamento precisam ser considerados para definir exercícios seguros e adequados, especialmente diante de dificuldades de equilíbrio ou risco de quedas.

Outro ponto é ter motivos para continuar envolvido com a vida. Para Laura, esse propósito estava na arte e no desejo de continuar representando. “Propósito não precisa significar carreira. Pode estar em cuidar das plantas, cozinhar para a família, participar de um grupo ou ensinar algo aos netos. O importante é ter atividades que despertem interesse e façam a pessoa perceber que sua participação tem valor”, conclui Vitor.